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terça-feira, 23 de setembro de 2025

Espera... tu disseste-me que a tua vida, por causa desta doença, agora é apenas  uma espera... a espera de quando vais deixar de conseguir fazer algo simples e banal, a espera de sentires fraqueza numa perna ou no outro braço, a espera de teres dificuldade de comer ou respirar... tudo é uma espera e não há nenhuma esperança que possa ser uma espera por algo melhor. 

Os livros de auto-ajuda dizem que em momentos maus devemos lembrar-nos que "dias melhores virão". Gostava de saber o que devemos pensar e onde nos podemos agarrar quando infelizmente daqui para a frente é sempre a piorar - se agora já é péssimo, vai ser sempre a piorar, até ao final. Essa é a unica certeza em tudo o que estamos a passar. 

Às vezes sinto uma pressão enorme de tentar aproveitar para ser um bocadinho feliz agora porque não vejo como poderei sê-lo no futuro. E se já estou tão cansada de estar triste e infeliz desde fevereiro... como estarei daqui a 1 ou 2 anos? Pela minha sanidade mental tenho de aproveitar de algum modo... mas depois penso se faz sentido estar feliz sabendo de tudo isto, como estar feliz??? Faz sentido rir-me com alguma coisa? Onde vou buscar força para isso? 

... no fundo tu és a minha força... e tu consegues, nem sei como, ter momentos de felicidade e dizer-me que a nossa vida é feliz. Talvez porque tentas a todo o custo acreditar que ainda há esperança disto não ser real, dos médicos se enganarem, de um milagre acontecer. E eu, apesar de muitas vezes viver em pânico do dia em que finalmente verás que isto é mesmo real e que não vale a pena ter esperança, tento deixar-me levar contigo para pelo menos sorrir e sentir-me feliz no agora... porque no futuro acho que nunca mais voltarei a ser.



sexta-feira, 18 de julho de 2025

 "Falo de tudo, desde pequenas tarefas quotidianas, livros, filmes, séries, aquele objectivo de um dia ir ao ginasio semanalmente, viagens de sonho..."

Esta foi uma das frases que utilizei para descrever o que este espaço iria ser... e entretanto, depois de levar com um camião em cima, quando olho para trás tudo em mim parece vazio, fútil. Quando penso que durante 2 anos fiz terapia e que os meus maiores problemas (que me pareciam mesmo enormes) e me faziam chorar a potes, eram ter o peito grande, achar-me gorda e feia, as rotinas e as tarefas do dia a dia de mãe juntamente com um trabalho por vezes muito exigente... ter de conduzir o que era assim uma tortura... não poder ter todos os dias teletrabalho... ai... quem me dera que a minha vida pudesse voltar a ser só isso, a ter de gerir apenas  esses problemas que eu julgava serem enormes, que até me tornavam uma pessoa talvez triste, talvez até com uma pequena especie de depressãozinha...

Hoje em dia, com tudo o que estamos a passar e principalmente com tudo o que ainda vamos ter de passar, não consigo levar a sério as pessoas, como eu era até há poucos meses atrás, com especie de depressões... sei que não devia dizer isso. Sei que dizem que é um problema muito real e cada vez mais frequente... mas vejam por mim... só são preocupações até aparecer um problema de verdade, que realmente muda tudo, toda a vida para terrivelmente muito pior. E é aí que se percebe que não há peitos, barrigas, trabalhos, sei lá... nada é importante até ao diagnóstico de uma doença terminal... principalmente esta que muitos dizem ser "A doença". Uma doença cruel que nos vai tirando tudo lentamente, como uma autêntica tortura.

O meu marido adora estar em casa... também gosta de sair, pelo menos uma vez por dia mas em geral gosta muito de usufruir do nosso lar. E há uns 7 anos construimos a nossa casa. Um verdadeiro sonho que se tornou realidade. Fizemos tudo à nossa medida dentro das nossas possibilidades. Temos uma cave que ele montou para ser a sua zona de gaming e sala de cinema e musica, temos uma piscina no jardim, temos um sotão com um mini ginásio... tudo escolhido por nós, para o nosso conforto em casa. 

Uma doença que nos obrigue a estar em casa nunca é bom para ninguém mas, tal como foi no covid, pelo menos podemos estar num sitio que nos diz muito com coisas escolhidas por nós e para nós... 

Só que até isso esta doença tira... quando ele deixar de andar, de se mexer, esta casa que foi o nosso sonho, vai ser todos os dias uma prisão, quando ele olhar para as escadas e se lembrar que nunca mais poderá ver a cave, os seus instrumentos, ou ir ao sotão apanhar sol nas cadeiras que comprou, ou até ir à piscina para relaxar como ele tanto gosta... todos os dias vai sentir essa impotência de não poder ter o que sempre teve, o que está mesmo ali para ele mas que jamais poderá voltar a usufruir.

Ficará limitado ao rés do chão, numa cadeira de rodas ou numa cama, para sempre... até morrer. É impossivel não pensarmos: "o que fizemos para merecer isto?" é algo tão mau, tão cruel que só parece poder ser castigo por algo.

Ontem vi-os a brincar na piscina, ele e a Inês... a fazerem competição de mergulhos... e penso: "Terá sido a ultima vez que vi esta brincadeira entre pai e filha?" "Será que para o ano a Inês ainda poderá ter o pai para brincar assim com ela?" 

Tenho muita inveja da ignorância dela, de não saber o que se passa com o pai e poder simplesmente aproveitar todos os momentos... porque eu, mesmo sabendo que devia aproveitar, agora mais do que nunca, já não consigo fazê-lo totalmente porque as "sombras das ultimas vezes" estão sempre a atormentar-me a mente...

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Já vamos a mais de metade deste ano de 2025... deste ano horrível... parece que ainda estou a rever a nossa passagem de ano, aquele beijo que demos imortalizado pela fotografia tirada pela Inês (uma das unicas ou talvez mesmo a unica foto que temos a dar um beijo...)... já olhei tanto para ela... para nos ver de novo como éramos quando ainda estavamos na ignorância do que seria o nosso ano, o nosso futuro, a nossa vida...

Devia ser sempre assim... nunca quis que me lessem as mãos e nunca quis ir a cartomantes. Nem é que acredite, sou demasiado racional, mas só o simples facto de alguém me poder dizer "vai sofrer muito, o seu futuro não vai ser bonito" ia deixar-me sempre com essa nuvem e sempre fugi dessas coisas... 

Aqui não deu para fugir... ninguém perguntou "quer mesmo saber o que vem aí?".. apenas disseram "aquelas palavras"... que nunca irei esquecer. O momento do diagnostico, da certeza do futuro, da certeza do nosso fim. A imagem está na minha cabeça e não vai sair nunca mais... da cara do médico a escrever e a olhar para o papel, sem nos olhar nos olhos, no teu suspiro enorme meio trémulo assim que ouviste o que temias ouvir depois de uma angustiante espera de 15 dias.. da minha mão que imediatamente saiu para confortar a tua perna... e do meu coração que nunca mais foi o mesmo desde o dia 7 de Fevereiro de 2025.

"Não tenho dúvidas que é de facto a doença do neurónio motor..."... e tudo caiu, desapareceu para sempre. Como diz a mnh psicologa, levamos com um comboio em cima. Nada ficou de pé, tudo mudou, tudo (como o conhecíamos) mudou. E eu ainda perguntei para que não restassem dúvidas na minha cabeça "mas é a ELA?".. "Sim, é a ELA"... 

Não sei qual foi o meu primeiro, segundo ou terceiro pensamento... sempre pensei demais e naquele momento então foi tudo um turbilhão... lembro-me de pensar que tinha rezado tanto para que não fosse... e portanto não acreditava mais nessas coisas, lembro-me de pensar que sempre agradeci a vida que tinha e que finalmente essa vida tinha acabado... lembro-me de pensar que há pouco mais de um ano, talvez por ironia do destino, tinha gravado vozes com a Inês para a APELA para ajudar os doentes com ELA a ter voz... lembro-me de pensar que poderia ser castigo por eu nunca ter ido a pé a Fátima apesar de tantos convites, lembro-me de pensar que sempre disse que queria muito ajudar alguém, que a minha vida só faria sentido assim... e agora finalmente vou perceber o significado dessas palavras e provavelmente arrepender-me de ter pensado sempre assim... lembro-me de pensar nos meus meninos... que tanto adoram o pai... no que vao sofrer e na minha impotência de os proteger como devia fazer como mãe, lembro-me de pensar nas minhas doenças auto-imunes - agora não posso mesmo ficar doente ou morrer, por eles... até essa pressão senti... - lembro-me de pensar nele... naquele que eu sempre soube que era a "minha tampa", quem sabe sempre como eu estou apenas por um gesto meu, que acho que me conhece melhor a mim do que eu própria me conheço... no que ele vai passar sem que eu possa fazer alguma coisa para resolver... e lembro-me depois de pensar em mim... nos meus sonhos de futuro contigo... sentados num café, depois dos miudos serem autónomos e terem a vida deles... dos nossos passeios futuros, das nossas futuras prendinhas mutuas... de tudo o que sonhámos e que afinal nunca irá acontecer... que ficará apenas como um sonho inacabado.

Tu não irás estar aqui e eu ficarei sozinha para sempre... 

Bem sei... o futuro pode dar muitas voltas mas não quero sequer colocar a hipotese que eu poderei "ir" ainda antes... isso seria ter de imaginar os meus filhos orfãos e isso é dor demais para aguentar ou imaginar. Já basta a dor de já sabermos o futuro de um de nós... um futuro que em todo lado dizem ser "o mais cruel de viver e assistir" - ver-te morrer aos bocadinhos e ver a nossa vida acabar um pouquinho todos os dias...

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Livros

Tenho vindo pouco escrever ao blog mas tenho lido muitos livros... tantos que já nem sei quais desde a última vez que aqui estive!

Este fim de semana, por exemplo, li um livro da série Irmandade da Adaga Negra da JRWard. Foi a primeira série que me fez conhecer este tipo de leitura. 

Recordo-me de ter lido o Crepúsculo e ter gostado (pois é... eu gostei do Crepúsculo... parece que foi há séculos!) e comecei a procurar livros do género. Havia montes deles a sair, todos com capas parecidas. Já não sei o que me fez comprar este mas quando li o primeiro... uau... fiquei mesmo apaixonada e pensei: isto é que é a sério!! Vampiros, mistério, guerras nas cidade, um conjunto de personagens a explorar (um por cada livro), romance... e agora já mais a sério, com erotismo bem detalhado. 

Li uns quantos e, sem conseguir parar, lembro-me de mandar vir do amazon alguns até em Inglês que ainda não tinham sido publicados em PT.

Depois fui mãe... e foi dificil acompanhar os livros, parei completamente de ler durante uns 2 anos ... e quando ia recomeçar, fui mãe novamente e pronto... 

Agora com a quarentena e a filha mais nova nos 4 anos, comecei a ler assim repentinamente, normalmente 1 livro por fim de semana. 

Descobri entretanto a Passionflix e, sempre que referem algum livro na página deles ou vejo algum comentário sobre uma autora, apresso-me a procurar referencias sobre o livro e comprar para ler.

Resultado... parece que enjoei estes livros. Os últimos 2 que li foram completamente lidos na diagonal... já parece que nada me me suscita interesse e quando vai novamente para a parte do envolvimento dos personagens... já penso: "lá vamos nós novamente esmiuçar as coisinhas todas"

Eu sou um bocado assim...obcessiva quando descubro que gosto de algo, e vejo/leio até à exaustão. Depois quando me aborreço, sinto-me perdida :(

Vi, há pouco tempo, que a HBO tem uma série (que nem fazia ideia que tinha sido feita) "The Discovery of Witches", baseada também num livro que li há alguns anos - A Noite de Todas as Almas. Na altura lembro-me que não tinha gostado muito do livro. Foi... assim assim.

Mas claro, tive curiosidade de ver a série porque me recordava em geral da história. E gostei, gostei de voltar ao mundo da fantasia, com romance mas já sem o erotismo tão central na história.

Por isso, comprei agora o volume 2 e 3 da trilogia e serão os livros que irão acompanhar nos próximos fins de semana. Julgo que talvez mais do que 2, a avaliar pela grossura de cada volume. A não ser que esta história também não me prenda e aí... lerei rápido, na diagonal novamente :( 

Esperemos que não...



sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Mudanças

Sou uma pessoa com alguns problemas de auto-confiança que, penso eu, tiveram a sua origem ainda em adolescente, com algum bullying (na altura não tinha esse nome) por ter usado óculos, aparelho nos dentes, por ter o peito maior do que a maioria das raparigas e por ser tímida e pouco propensa a actividades mais físicas, o que me tornava pouco popular nas escolas que frequentei.

Infelizmente os efeitos dessa altura prolongaram-se no tempo e hoje, com mais de 40 anos, continuam a ter efeitos na minha postura de vida, no meu trabalho, em reuniões (onde tento falar/expor-me o mínimo possivel) e até em convivio com amigos (onde receio sempre dizer algo estúpido)... 

No entanto, se hoje me perguntarem se gosto de mim, ao contrário de antes, eu diria sem hesitar - completamente. A nivel fisico é verdade que não consigo mudar grande coisa - falta-me força de vontade para "ginastica" - mas a nivel psicologico, a vida dá-nos a opçao de escolhermos nós quem e como queremos ser. O que pensar, o que defender, o que valorizar. E estou muito tranquila com as minhas escolhas. Sou mesmo o que quero ser e por isso gosto de mim.

Mas continuo a ter defeitos que não consigo mudar - como todos nós certamente. Um deles é a ansiedade sempre que algo muda na minha vida. Ao contrario de muita gente, adoro rotinas. Sejam elas "grandes" - como o trabalho - ou pequenas - como simplesmente ficar logo meia desorientada nos dias em que tenho consultas médicas e por isso o meu dia já não será igual ao dia anterior.

Por isso penso lidar tão bem como o trabalhar em casa durante esta pandemia que estamos a atravessar. Todos os dias são iguais sim - ou seja, optimos!! :) 

Mas quando algo muda... fico em stress. Sempre fui assim e estou pior agora. Porque descobri que algo me afecta mais do que quando a minha rotina muda - quando a rotina dos meus filhos muda. Porque nesse caso sofro e anseio por mim e por eles, é a dobrar. Há quem diga que as crianças têm uma grande capacidade de se ajustar e adaptar. E tenho a certeza que assim será. Mas fico com o meu coração apertado. Tudo irá mudar na escola para a minha mais pequena, a partir da proxima semana. Não bastava o covid... e eu não a poderei proteger, nao estarei com ela para ver como ela reage, como lidará com a situação... ontem mal dormi de noite e hoje nao sei se irá pelo mesmo caminho.... como eu queria ser diferente... pelo menos nestes casos :(

terça-feira, 23 de junho de 2020

Pedro Lima

Não posso dizer que esta sensação é novidade para mim...
Desde pequena que algumas mortes ficaram na minha memória e me afectaram durante dias, meses... a maior delas, devo dizer, foi a Daniela Perez.
No caso dela, tinha tudo para me afectar - uma rapariga bonita, jovem, que dançava lindamente, actriz, tudo o que eu sonhava ter/ser quando crescesse.
Ela foi assassinada aos 22 anos, de uma forma desumana e brutal. Eu era uma criança nessa altura, penso que com 13 anos...
Ainda passava na televisão a telenovela onde ela participava com aquele que viria a ser o assassino e eu alimentei isso, vi-a todos os dias na televisão, gravava em vídeo, via as cenas dela vezes sem conta... alterei até o nome do meu diário para "Dani", o nome pelo qual ela era chamada. Foi tao intenso que, se fechar os meus olhos, ainda consigo ver hoje, anos depois, as mensagens dos colegas dela da novela, e lembro-me da música de fundo. Foi passando com o tempo e com o meu crescimento mas sempre que penso nisto o nó da garganta está cá... pensar que aquele monstro já está cá fora, a fazer a vida dele como se nada tivesse acontecido, com mulher e filhos, enquanto uma vida foi tirada de uma forma que uma pessoa normal e humana nunca poderia fazer. Não há redenção possível para isto, é apenas e só uma injustiça, um erro de todo o tamanho. 
Agora, já com 40 anos, idade que infelizmente a Dani nunca chegou a ter, eu sou obviamente uma sortuda. Porque, apesar de nao ter seguido nem tentado sequer seguir nenhum dos meus sonhos de adolescente, quer na dança, quer na representação, encontrei nos estudos uma área que me satisfaz e onde me sinto feliz. Não sei se é conformismo mas é o que sinto. Lembro-me de há uns anos ir com a minha chefe da altura ver a irmã bailarina a dançar num bailado. O meu primeiro pensamento a vê-la no palco foi: "esta sim deve ser feliz, está ali mesmo a fazer o que ama, solta, livre". Dançar sempre me fez feliz, ainda que só em discotecas, era uma sensação diferente, única. Os números onde vivo diariamente não me dão essa sensação é claro, mas também não me angustiam. Gosto de fazer coisas onde me sinto confortável, onde sinto que tenho algum domínio. Provavelmente nunca teria sido feliz numa profissão que me estivesse sempre a colocar à prova, ainda que quando a superasse, a sensação pudesse ser transcendente. 
Sou sortuda porque consegui ter tudo o que eu imaginava que me iria fazer feliz - filhos, namorado, uma casa linda construída de raiz, e dinheiro para pequenos caprichos que me fazem sentir bem. Não sou pessoa de precisar de grandes viagens nem grandes carros, nem grandes telemóveis. Sou mais pessoa de gastar o meu dinheiro com coisas para casa, que me façam gostar de estar aqui 365 dias em vez de gastar tudo numas férias de 2 semanas. Por isso tenho netflix, alexas com subscrição de musica online, descobri agora a passionflix, compro varios livros, também jogo de vez em quando, tento ter à minha disposição (e por felizmente tenho algum dinheiro que o permite) tudo o que me faça querer estar comigo, em casa.
Penso que foi por isso que a quarentena foi tão tranquila por aqui. Tenho amigos, gosto de estar com amigos, mas muito francamente, o que eu gosto mais é de estar comigo. E penso que nem todos sentirão o mesmo. E é isto que me fez pensar quando soube do Pedro Lima.
O Pedro Lima, juntamente com o Diogo Infante, Nuno Lopes, Ricardo Pereira e Fernanda Serrano, são os actores portugueses que me dizem mais, por motivos completamente diferentes. O Pedro Lima quando apareceu, era conhecido por ser nadador profissional do Sporting. Eu tinha uma amiga na altura que o via nos treinos e claro, miúdas como eramos, referiamos o facto dele ser maravilhosamente bonito (é normal sendo adolescentes). Depois cheguei a vê-lo um par de vezes na Guerra Junqueiro, no cinema Londres e isso acabou por fazer com que o nome "Pedro Lima" ficasse sempre registado em mim. Eu deixei de ver novelas assim que saí de casa dos meus pais e perdi por isso a maior parte das telenovelas onde terá participado. Mas nas redes sociais, nas revistas, a imagem que tinha dele era de um homem lindo, que também tinha conseguido tudo na vida dele - uma profissão que desejava, uma mulher que amava e 5 filhos saudáveis, um desportista, uma pessoa sempre alegre.
Quando vi a notícia no meu telemóvel, chorei. Não que isso seja novidade em mim. Penso que devo ser a pessoa mais empática que alguma vez conheci. Sinto-me até estranha ao pé dos outros por isso mesmo. Sofro sempre pelos outros, estou sempre a colocar-me no lugar dos outros e isso faz-me sofrer muito também, mesmo quando os problemas não são meus. Acho que, se estivesse de fora e me conhecesse, até acharia que eu seria apenas uma pessoa com a mania e a tentar aproveitar a dor dos outros para que sentissem pena dela. Mas não é assim, tanto que só estou a escrever isto aqui, atras de um computador, onde ninguem me conhece. Evito falar destas coisas e destas sensações até às pessoas mais proximas de mim.
Na primeira altura (e na segunda e ate na terceira...) nunca me passou suicídio pela cabeça, pensei sempre num acidente de surf nas rochas. Eu não o conhecia e portanto qualquer opinião que eu desenhe na mnh cabeça não é baseada em nada mais que a minha própria visão das coisas (e que não é igual para todos nós) e nas coisas que saíam a público.
Ha quem fale de problemas financeiros e acredito que, em muitos casos e principalmente com filhos, isso seja de facto um problema que leva a preocupações e a ansiedades enormes. No entanto, não é expectável que só isso condicionasse um desfecho tão triste e brutal. Pode especular-se à vontade mas a verdade é que ele estava no momento a trabalhar. Tinha estado parado, como aliás todos, mas estava a trabalhar. Ser actor não é uma profissão estavel a não ser que se seja mesmo fenomenal, mas tambem nunca o foi. Alguns actores nem contratos de exclusividade têm por isso acho estranho que, mesmo a existir preocupação (como faz sentido existir neste momento a qualquer um de nós) isso tenha condicionado tudo. 
Tentamos no nosso mundinho então encontrar outras razões. Talvez não fosse feliz... mas depois vemos sempre aquele sorriso, todos que conviviam com ele dizerem que amava profundamente a mulher, que venerava os filhos, que vivia para a familia. E é aqui que o nosso coração e a nossa cabeça faz tilt. Mas como é que alguém que era feliz, que adorava a familia, que tinha trabalho, prefere desistir e acabar com tudo o que conhece?
Surge então a palavrinha "depressão". Parece uma palavrinha nova mas não.
Eu cresci a ouvir a minha mãe, que sempre trabalhou muito na vida, dizer que depressão é para pessoas que têm muito tempo para pensar e que não fazem nada na vida. E esta frase sempre me fez muito sentido. Ainda hoje penso que existe alguma razão nelas - se não temos tempo para parar, para pensar na nossa vida, é verdade que também não nos questionamos, vivemos em modo automático. E isso pode "adiar" o encontro connosco próprios.
Aliás, devo dizer que anos depois, penso que a minha mãe está no momento com uma depressão. Agora que a vida está mais calma, de repente oiço-a falar amargurada dos ultimos 40 anos de vida, o quanto sente que foi enganada pelos outros etc. Mas para mim, ela foi enganada por ela própria. Porque preferiu viver vendada, em modo automático e sem nunca parar para se conhecer, para se ouvir... 
Mas custa mais perceber o que poderá desencadear uma depressão em alguém que aparentemente tem tudo. Baixa auto-estima? O Pedro chegou a dizer isso numa entrevista... o que quer dizer isso? Eu sempre tive baixa auto-estima, porque passei por algum bullying na escola (caixa de oculos, mamalhuda, boca de aço...enfim) que me marcou e influenciou para sempre, mas felizmente comecei a gostar de mim psicologicamente e isso equilibrou a maneira como me vejo... se o problema do Pedro não poderia ser o fisico, seria o psicológico? Será que ele não gostava dele próprio? Penso que poderia ser isso... se ele era tao exigente consigo próprio isto poderia deixa-lo sempre angustiado por nunca atingir o que achava ser os mínimos. Tentar agradar os outros é dificil mas tentar agradar nós próprios pode ser muito pior.... 
Por outro lado a depressão é algo quimico. Se nos doi a perna, o estomago, qualquer outra parte de nós, vamos ao médico e tratamos. Porque é que no caso do cerebro achamos que e diferente?
É natural procurar encontrar razões para nos acalmar a dor... mas esta dor não acaba e não diminuirá para a familia. Penso muito na mulher dele e nos filhos. A filha mais nova dele pouco mais anos terá do que a minha. Desde esse dia que sempre que abraço a minha me lembro que a pequenina não terá mais o abraço do pai que a amava. Espero que aquela mãe consiga superar a dor dela para conseguir ajudar tambem os filhos a lidar com algo que parece impossivel de ultrapassar...
Não podemos ignorar os nossos sentimentos, não podemos fingir que não temos necessidades, temos de nos ouvir e temos de ir ao médico sempre que necessário para tratar qualquer orgão, zona do nosso corpo, que doa. E tal como outras dores, não podemos demorar demais a ir... como se diz, quando o rastreio é mais cedo, mais possibilidades existem para a cura...



segunda-feira, 25 de maio de 2020

Quarentena - parte 2


E passados que estão 2 meses , desde o "pensamento" inicial acerca da quarentena, segue o balanço final: realmente tive momentos menos fáceis do que nos primeiros 12 dias!...
O meu trabalho permitiu-me ficar por casa, em teletrabalho, pelo menos até agora - nos próximos dias saberei por quanto mais tempo :( - e, por ser um pouco pessimista e portanto mais cautelosa do que a maioria certamente, terei saido nestes meses apenas umas 2 vezes e por motivos mesmo inadiáveis.
Já não estamos em estado de emergência e do que vejo nos telejornais, as praias e as ruas já estão cheias de gente pelo que já me sinto algo "ET" neste momento.
Continuo com receio e já algo acomodada a esta vida de casa, confesso, pelo que, se dependesse de mim, continuaria assim pelo menos até Setembro. Sei no entanto que só tenho esta opinião porque em termos de rendimento não fui afectada por toda esta situação. Entendo perfeitamente que não podemos continuar fechados sob pena de muitas pessoas, com famílias como a minha, não terem dinheiro sequer para comer. 
E não pode ser, claro que não pode ser! Tem de se arranjar soluções ainda que com prudência. 
Mas é um facto que, a minha vida, está melhor do que antes. Talvez por fazer habitualmente 80km diários nas minhas deslocações casa/trabalho, por apanhar sempre trânsito, por andar a correr a ir buscar/levar os miudos, fazer TPC's em cima dos banhos/jantares/actividades extra... e de repente ter ganho umas 2-3 horas no meu dia por já não fazer estas coisas. Consigo aproveitar a minha casa, coisa que nem isso eu sentia antes, e os meus filhos brincam muito mais os 2 do que antes, estão mais cúmplices apesar de alguns momentos normais de irritação.
No entanto existem também muitas coisas más... tenho trabalhado muito mais, ou pelo menos a sensação é essa. Consigo focar-me totalmente no trabalho (coitados dos meus filhos mas de facto consigo ignorá-los muitas vezes) e nunca senti que ficou algo por fazer do trabalho ou menos bem feito por estar em casa com crianças. Mas sinto uma culpa enorme em relação aos meus filhos. Pena por não conseguir sequer "olhar" para a televisao quando estão a ver a tele escola, por não conseguir acompanhar a mais pequena e tentar desenvolver algumas dificuldades, que este tempo em casa me permitiu perceber nela... Por não brincar... por vê-los perdidos muitas vezes a chamarem por nós e a reclamarem que trabalhamos muito...
Por outro lado, agora começo a sentir que realmente as crianças estão a ficar para trás em termos da educação... os meus filhos não têm aulas online (como tantos outros certamente), talvez sinta por isso... e eu não estou a conseguir ajudá-los pelo stress do meu trabalho. Tenho muitos colegas que conseguem dosear mas, talvez pela minha função, por não ter backup ou trabalhar em equipa, não me é possivel. Sou eu para tudo e "eu" às vezes não chego!
Não é uma sensação boa esta... e tem-me consumido bastante. Uns dias mais outros menos.
No entanto, tal como disse no inicio, os prós continuam superiores aos contra e por mim, continuaria aqui mais um tempo. Mas sei que não é justo.
Espero no entanto que a minha empresa me possibilite para o futuro uma melhor flexibilização do meu tempo, com algum trabalho em casa porque sem dúvida, é uma tendência que deveria vir para ficar, ainda que em regime misto com idas ao escritório.
Veremos a evolução da situação, como as pessoas se vao portar agora com o bom tempo, se entretanto o virús desaparece (já vi alguns estudos que apontam essa possibilidade)... estamos de facto a viver uma altura histórica na humanidade.
Esperemos que o desfecho da mesma, nos livros de história, não seja aterrador.
Ficar tudo bem já não vai ficar... muita gente já faleceu e é impossivel ficar imune a esta realidade...



quarta-feira, 25 de março de 2020

Quarentena 2020


Quarentena

No final de 2020, quando escolherem a palavra do ano, será certamente quarentena.
Este Covid-19 chegou mesmo em força e está a provocar um tsunami por todo o mundo.
Há quem já tenha feito grandes dissertações sobre o quanto esta epidemia apareceu para nos fazer pensar nas verdadeiras prioridades da vida, no quanto andámos enganados este tempo todo, sempre a correr de um lado para o outro, cheios de tarefas, horários de trabalho intensivo e pouco tempo para a família e para nós.
Concordo. Mas não foi preciso existir o Covid-19 para eu ter chegado a essa conclusão.

No meu caso adoro trabalhar. Adoro ter tarefas e sentir-me útil em sociedade. E tenho a sorte de fazer o que gosto. Muitas vezes confesso que até sobreponho essa sensação àquela que me dá o prazer de ser mãe. Mas penso que as duas se completam e são essenciais para uma vida plena. O difícil sim é equilibrar ambas.
Se antes não existia equilíbrio, agora também não.
A consciência e a responsabilidade mandam-nos ficar em casa. Ter as preocupações apenas mais básicas da vida: saúde e alimentação. Não socializar, não passear e não ver as maravilhas da natureza que nos fazem, numa altura “normal”, relaxar do dia-a-dia. Desculpem mas não penso que isto seja tão bom que por isso nos faça pensar que estávamos mal antes e que tínhamos as prioridades trocadas.
O que a nossa sociedade tem de errado já há muito tempo, é de facto o horário diário de trabalho.  
Aqui em casa somos uma família de 4. Sendo que o dia não estica e temos de dormir umas 8 horas, e estamos no trabalho outras 8 (na melhor das hipóteses), se somarmos 1 hora para deslocações casa-trabalho, 1-2 horas para tratar das refeições (neste caso, pequenos almoço e jantares), 1 hora para os banhos, 1 hora para TPC's e tirando ainda as actividades que os miudos costumam ter nos nossos dias sobra muito pouco para tudo o que falta fazer ou tudo o que pode ter corrido mal - sair mais tarde do trabalho, apanhar transito, tratar da cozinha ou das roupas que não podem esperar pelo fim-de-semana. E de facto fica para trás o mais importante – brincar, conversar e socializar com quem mais gostamos e, tempo para nós próprios. Não é à toa que eu nem falei em ir ao ginásio… seria arranjar 1 hora que já não existe pelos meus cálculos… lol

Sei que é complicado. Muitas vezes trabalhamos 8 horas por dia e é pouco, tendo em conta todas as tarefas que o nosso trabalho exige. Mas existem muitas vezes picos de trabalho e necessariamente outras alturas em que estamos mais calmos. Se durante os picos de trabalho saímos muitas vezes mais tarde, para alem das 8 horas, também é verdade que quando não estamos nessas alturas em regra não nos é permitido ou visto com bons olhos sair mais cedo. 
O segredo para mim está na flexibilização. Ter flexibilidade de horário, poder fazer teletrabalho alguns dias por semana ou quando necessário. Tenho a certeza que iriamos conseguir um equilíbrio muito maior entre a vida pessoal e a profissional. 
Com isto iriamos ser mais felizes e a sensação de felicidade consegue milagres… e acredito sinceramente que iriamos ser muito mais produtivos a nível de trabalho, mesmo não trabalhando as 8 horas diárias em alguns dias.

Estes meus dias de quarentena têm sido assim. Como eu gostaria de ter alguns por semana numa altura normal (mas com miudos na escola claro!). Acordar e ficar em casa a trabalhar. E trabalhar com disciplina sim. É assim que tem sido. Tanto que não sinto qualquer aborrecimento e o tempo tem passado a correr! Tenho conseguido fazer tudo a que me proponho e se por acaso os miudos precisam de mais atenção e não consigo dar o meu melhor durante o "horario de trabalho", com flexibilidade (palavrinha mágica) faço mais tarde. 
Não tenho no entanto conseguido chegar aos calcanhares das mães profissionais das redes sociais. A minha filha mais nova não tem passado o dia a fazer trabalhos manuais, nem a aprender letras e numeros. Porque para isso eu teria de a acompanhar praticamente todo o tempo. O meu filho tambem ainda nao fez todos os trabalhos e fichas que a professora vai enviando porque muitas vezes precisa de apoio tambem e eu estou a trabalhar diariamente.
Isto não é nem nunca será uma situação ideal mas com equilibrio tudo tem corrido perfeitamente aqui em casa. Já estamos no 12º dia em casa fechados os 4 e não há discussões, aborrecimentos e nem tao pouco me sinto perto de ficar maluca.
Como acho (infelizmente) que isto está para durar, veremos se daqui a 30 dias continuo assim tao fresca!! 
Mas espero ansiosamente pelo dia em que possa finalmente começar a ler livros ou a ver Netflix porque estou em casa em quarentena sem nada para fazer... esse dia ainda não chegou por estas bandas!!