"Falo de tudo, desde pequenas tarefas quotidianas, livros, filmes, séries, aquele objectivo de um dia ir ao ginasio semanalmente, viagens de sonho..."
Esta foi uma das frases que utilizei para descrever o que este espaço iria ser... e entretanto, depois de levar com um camião em cima, quando olho para trás tudo em mim parece vazio, fútil. Quando penso que durante 2 anos fiz terapia e que os meus maiores problemas (que me pareciam mesmo enormes) e me faziam chorar a potes, eram ter o peito grande, achar-me gorda e feia, as rotinas e as tarefas do dia a dia de mãe juntamente com um trabalho por vezes muito exigente... ter de conduzir o que era assim uma tortura... não poder ter todos os dias teletrabalho... ai... quem me dera que a minha vida pudesse voltar a ser só isso, a ter de gerir apenas esses problemas que eu julgava serem enormes, que até me tornavam uma pessoa talvez triste, talvez até com uma pequena especie de depressãozinha...
Hoje em dia, com tudo o que estamos a passar e principalmente com tudo o que ainda vamos ter de passar, não consigo levar a sério as pessoas, como eu era até há poucos meses atrás, com especie de depressões... sei que não devia dizer isso. Sei que dizem que é um problema muito real e cada vez mais frequente... mas vejam por mim... só são preocupações até aparecer um problema de verdade, que realmente muda tudo, toda a vida para terrivelmente muito pior. E é aí que se percebe que não há peitos, barrigas, trabalhos, sei lá... nada é importante até ao diagnóstico de uma doença terminal... principalmente esta que muitos dizem ser "A doença". Uma doença cruel que nos vai tirando tudo lentamente, como uma autêntica tortura.
O meu marido adora estar em casa... também gosta de sair, pelo menos uma vez por dia mas em geral gosta muito de usufruir do nosso lar. E há uns 7 anos construimos a nossa casa. Um verdadeiro sonho que se tornou realidade. Fizemos tudo à nossa medida dentro das nossas possibilidades. Temos uma cave que ele montou para ser a sua zona de gaming e sala de cinema e musica, temos uma piscina no jardim, temos um sotão com um mini ginásio... tudo escolhido por nós, para o nosso conforto em casa.
Uma doença que nos obrigue a estar em casa nunca é bom para ninguém mas, tal como foi no covid, pelo menos podemos estar num sitio que nos diz muito com coisas escolhidas por nós e para nós...
Só que até isso esta doença tira... quando ele deixar de andar, de se mexer, esta casa que foi o nosso sonho, vai ser todos os dias uma prisão, quando ele olhar para as escadas e se lembrar que nunca mais poderá ver a cave, os seus instrumentos, ou ir ao sotão apanhar sol nas cadeiras que comprou, ou até ir à piscina para relaxar como ele tanto gosta... todos os dias vai sentir essa impotência de não poder ter o que sempre teve, o que está mesmo ali para ele mas que jamais poderá voltar a usufruir.
Ficará limitado ao rés do chão, numa cadeira de rodas ou numa cama, para sempre... até morrer. É impossivel não pensarmos: "o que fizemos para merecer isto?" é algo tão mau, tão cruel que só parece poder ser castigo por algo.
Ontem vi-os a brincar na piscina, ele e a Inês... a fazerem competição de mergulhos... e penso: "Terá sido a ultima vez que vi esta brincadeira entre pai e filha?" "Será que para o ano a Inês ainda poderá ter o pai para brincar assim com ela?"
Tenho muita inveja da ignorância dela, de não saber o que se passa com o pai e poder simplesmente aproveitar todos os momentos... porque eu, mesmo sabendo que devia aproveitar, agora mais do que nunca, já não consigo fazê-lo totalmente porque as "sombras das ultimas vezes" estão sempre a atormentar-me a mente...