segunda-feira, 14 de julho de 2025

Já vamos a mais de metade deste ano de 2025... deste ano horrível... parece que ainda estou a rever a nossa passagem de ano, aquele beijo que demos imortalizado pela fotografia tirada pela Inês (uma das unicas ou talvez mesmo a unica foto que temos a dar um beijo...)... já olhei tanto para ela... para nos ver de novo como éramos quando ainda estavamos na ignorância do que seria o nosso ano, o nosso futuro, a nossa vida...

Devia ser sempre assim... nunca quis que me lessem as mãos e nunca quis ir a cartomantes. Nem é que acredite, sou demasiado racional, mas só o simples facto de alguém me poder dizer "vai sofrer muito, o seu futuro não vai ser bonito" ia deixar-me sempre com essa nuvem e sempre fugi dessas coisas... 

Aqui não deu para fugir... ninguém perguntou "quer mesmo saber o que vem aí?".. apenas disseram "aquelas palavras"... que nunca irei esquecer. O momento do diagnostico, da certeza do futuro, da certeza do nosso fim. A imagem está na minha cabeça e não vai sair nunca mais... da cara do médico a escrever e a olhar para o papel, sem nos olhar nos olhos, no teu suspiro enorme meio trémulo assim que ouviste o que temias ouvir depois de uma angustiante espera de 15 dias.. da minha mão que imediatamente saiu para confortar a tua perna... e do meu coração que nunca mais foi o mesmo desde o dia 7 de Fevereiro de 2025.

"Não tenho dúvidas que é de facto a doença do neurónio motor..."... e tudo caiu, desapareceu para sempre. Como diz a mnh psicologa, levamos com um comboio em cima. Nada ficou de pé, tudo mudou, tudo (como o conhecíamos) mudou. E eu ainda perguntei para que não restassem dúvidas na minha cabeça "mas é a ELA?".. "Sim, é a ELA"... 

Não sei qual foi o meu primeiro, segundo ou terceiro pensamento... sempre pensei demais e naquele momento então foi tudo um turbilhão... lembro-me de pensar que tinha rezado tanto para que não fosse... e portanto não acreditava mais nessas coisas, lembro-me de pensar que sempre agradeci a vida que tinha e que finalmente essa vida tinha acabado... lembro-me de pensar que há pouco mais de um ano, talvez por ironia do destino, tinha gravado vozes com a Inês para a APELA para ajudar os doentes com ELA a ter voz... lembro-me de pensar que poderia ser castigo por eu nunca ter ido a pé a Fátima apesar de tantos convites, lembro-me de pensar que sempre disse que queria muito ajudar alguém, que a minha vida só faria sentido assim... e agora finalmente vou perceber o significado dessas palavras e provavelmente arrepender-me de ter pensado sempre assim... lembro-me de pensar nos meus meninos... que tanto adoram o pai... no que vao sofrer e na minha impotência de os proteger como devia fazer como mãe, lembro-me de pensar nas minhas doenças auto-imunes - agora não posso mesmo ficar doente ou morrer, por eles... até essa pressão senti... - lembro-me de pensar nele... naquele que eu sempre soube que era a "minha tampa", quem sabe sempre como eu estou apenas por um gesto meu, que acho que me conhece melhor a mim do que eu própria me conheço... no que ele vai passar sem que eu possa fazer alguma coisa para resolver... e lembro-me depois de pensar em mim... nos meus sonhos de futuro contigo... sentados num café, depois dos miudos serem autónomos e terem a vida deles... dos nossos passeios futuros, das nossas futuras prendinhas mutuas... de tudo o que sonhámos e que afinal nunca irá acontecer... que ficará apenas como um sonho inacabado.

Tu não irás estar aqui e eu ficarei sozinha para sempre... 

Bem sei... o futuro pode dar muitas voltas mas não quero sequer colocar a hipotese que eu poderei "ir" ainda antes... isso seria ter de imaginar os meus filhos orfãos e isso é dor demais para aguentar ou imaginar. Já basta a dor de já sabermos o futuro de um de nós... um futuro que em todo lado dizem ser "o mais cruel de viver e assistir" - ver-te morrer aos bocadinhos e ver a nossa vida acabar um pouquinho todos os dias...

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